No final da gravidez, eu era a pessoa mais sensível (e suscetível) da face da terra: Fred que o diga, chegou a me demover de sacar do cartão de crédito e gastar R$2000, que obviamente eu não tinha em caixa, para trazer pra casa um filhote de Basenji que ficou por semanas na vitrine de uma pet shop no shopping Higienópolis, sozinho, e o chorinho dele me cortava o coração. Parece bobo, mas reações como essas eram comuns, qualquer coisa me deixava triste, desanimada, com vontade de sumir - daí ter começado tratamento preventivo contra depressão pós parto, já no início do oitavo mês.
A história do atropelamento do Vitão me comoveu de verdade. Não, eu não o conhecia. Vi as fotos dele, os depoimentos dos amigos, e achei que ele tinha uma cara de tão legal, e havia tanta gente tão triste que não consegui evitar aquele pensamento infame que às vezes passa pela nossa cabeça, como se coubesse à gente julgar: tanto inútil por aí, e tinha que morrer um cara legal, de uma forma tão abrupta e estúpida?
Yeah. Como falei, não conhecia esse moço. Porque claro, né? Tragédias desse tipo nunca acontecem com ninguém que a gente conhece, ou com quem esteja perto da gente, ou com a gente. Morte feia e imbecil é sempre a dos outros. É uma sensação que se tem, e obedece a uma certa lógica: se acreditássemos que um fim trágico nos espreita atrás de cada poste ou muro, quem é que sairia de casa? A gente vai vivendo.
Eu devia estar contando aqui, porque nem todo mundo sabe ainda, que a minha filha Nina nasceu há 8 dias - saudável, linda, cheia de caras e bocas, um ser humano minúsculo e incrível. Ainda pretendo contar mais coisas sobre ela, mas fica pra depois. Por ora, basta o leitor saber que ela mama de três em três horas, parece até que tem um timer instalado em seu corpinho e, noite passada, logo após uma dessas mamadas, decidi que quem estava com fome era eu. Pãozinho com berinjela em conserva, suco de laranja, melancia, e eu sentada na frente do laptop para ler notícias, como sempre fiz de madrugada. Estava lá a manchete que todo mundo leu: um sem noção fez do seu carro uma arma e matou minha amiga Bruna e a mãe dela. Não bastasse a gravidade do fato em si, deixou sozinho o Rafael, irmão e filho delas.
A Bruna e eu trabalhamos juntas por algum tempo. Uma estava sempre na sala da outra. A gente trocava idéias sobre viagens, maquiagens, relaconamentos, tudo mais. Era uma moça super alto astral, animada, feliz. E empreendedora - razão pela qual acabou largando o emprego que, embora estável e pagando bem, não a fazia feliz. Entendi completamente, guardadas as proporções foi por motivos parecidos que deixei a faculdade de direito no quarto ano, para ir estudar o que realmente me interessava. A Bruna tinha 28 anos e muitos, muitos planos.
Sua mãe eu conheci numa festa de aniversário da Bruna. Ela sempre nos mandava, lá no escritório, bolos e doces de mil sabores, e nessa ocasião eu, Fred e colegas de trabalho fomos provar os quitutes in loco. A casa era super convidativa, a família nos recebeeu como se fizéssemos parte dela, a gente se sentiu acolhido. O astral era bom, e eles eram sui generis. Rafael, o irmão, é palestrante motivacional e mágico - sim, pessoa que faz mágicas! Digita "Rafael Baltresca" no Youtube, pra você ver. Conheço-o pouco, mas eu e a Bruna estávamos sempre relembrando e nos divertindo o episódio em que, no show da Madonna, ele pediu o lápis de olho da Bruna emprestado, e a gente não sabia para que era... e lá estava ele, anotando o telefone de uma menina com o tal lápis.
Essas lembranças me motivaram a escrever esse post. Eu sou péssima levantadora de qualquer bandeira, e na verdade minha intenção nem é usar o alcance do VnF? para lançar uma campanha de conscientização no trânsito. Tenho que dizer que nunca tive qualquer esperança de que isso vá acontecer em larga escala. Eu sou uma incrédula, gente. Sou daquelas que quer pegar a malinha e ir embora, desiludida de pai e mãe. Acho que a gente diz "se beber, não dirija" e ninguém está realmente ouvindo; perder minha amiga dessa maneira não ajudou em nada. Minha casa está triste. Tanto pelo que aconteceu quanto pelo que está por vir, porque eu acho que perdi a minha Bruna e um dia desses é capaz que você perca a sua.
Quem acredita em Deus, por favor, peço que ore pela família deles, seja pelos que se foram ou pelo que ficou. Quem é empreendedor como a Bruna, que faça campanha, que conscientize pessoas, que eduque, que ensine. Porque atualmente, e depois dessa, eu só acredito no portão de embarque.
Tchau, Bruna. Vou ficar com saudades. Aos leitores, desculpem o desabafo.